A COP29 deve ser a COP de se erguer e cumprir: Simon Stiell

 

ONU Mudanças Climáticas

Secretário Executivo Simon Stiell

Discurso no Evento Virtual do

Brookings Institution’s Global Economy and Development Programme

O seguinte texto é a tradução ao português do discurso feito pelo Secretário Executivo da ONU Mudanças Climáticas, Simon Stiell, originalmente em inglês.

Muito obrigado. Gostaria de começar agradecendo à Brookings - Brahima e Amar - por nos receber - e à Vera por se juntar a nós.

Hoje quero falar com vocês sobre financiamento climático - onde estamos, para onde estamos indo e onde precisamos estar.

E as mudanças a serem feitas e as ações a serem tomadas para que o financiamento flua para todos os setores de todas as economias.

Então, vamos começar perguntando: onde estamos agora em relação ao financiamento climático?

Na última década, vimos um progresso real.

Mais de um trilhão de dólares foram investidos em ação climática no ano passado no mundo todo. Em comparação com algumas centenas de bilhões há uma década.

De acordo com a OCDE, em 2022 os países desenvolvidos providenciaram e mobilizaram mais de 100 bilhões de dólares em financiamento climático para os países em desenvolvimento.

Chegamos até aqui porque os pioneiros e os governos inteligentes - que tinham os meios - aproveitaram a chance. Eles viram a oportunidade e a aproveitaram.

Mas, em relação ao ponto em que precisamos estar, isso não é nem de longe suficiente.

Este ano, vimos centenas de bilhões de dólares de danos a países ricos e pobres.

Tantas pessoas sofreram aqui nos Estados Unidos com os danos devastadores causados pelos furacões Milton e Helene. Minha própria ilha natal, Carriacou, foi atingida diretamente pelo furacão Beryl há apenas alguns meses.

E mesmo aqueles que evitaram danos diretos foram duramente atingidos pela inflação, pois as cadeias de suprimentos foram bloqueadas e quebradas.

Simplesmente não podemos nos dar ao luxo de ter um mundo onde há os que têm e os que não têm energia limpa. Em uma transição global com a velocidade em dobro, muito em breve todos perderão.

Porque só poderemos evitar que a crise climática dizime todas as economias, inclusive as maiores, se todas as nações tiverem os meios para reduzir a poluição por gases de efeito estufa e aumentar a resiliência climática.

Portanto, sabemos que são necessários mais trilhões de dólares.

Fazer isso é um investimento crucial para proteger a economia global, e será uma fração dos custos que cada nação pagará se permitirmos que a crise climática continue a se alastrar, devastando cada vez mais vidas e meios de subsistência a cada dia, cada semana, cada mês e cada ano.

Então, como podemos dar o próximo passo para garantir uma transição em que mais países e empresas se beneficiem e em que todos os povos e comunidades sejam genuinamente protegidos?

O financiamento climático internacional deve crescer, intensificar e aumentar sua escala para atender a esse momento.

Na segunda-feira começam as Reuniões Anuais do Banco Mundial. Elas são, mais uma vez, uma grande oportunidade para criar mudanças.

Porque os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento estarão no centro dessa transição. Ainda esta semana, o Banco Mundial anunciou mais empréstimos concessionais para o clima. E o FMI está procurando maneiras de incorporar ação e riscos climáticos em todo o seu trabalho.

Essas são boas notícias. Mas aumentos incrementais não levarão a um aumento exponencial de investimentos e crescimento verde. No financiamento climático precisamos de velocidade, e sem uma escala muito maior todas as economias fracassarão.

Muitos países estão enfrentando crises de dívida que equivalem a camisas de força fiscais, tornando quase impossível investir em ação climática.

Nas Reuniões Anuais precisamos ver mais sinais de que o Banco Mundial e o FMI estão comprometidos em garantir que os países em desenvolvimento tenham fundos e espaço fiscal para ação climática e investimentos climáticos, e não dívidas devastadoras e custos altíssimos de capital.

O alívio da dívida e a introdução de mais cláusulas de dívida relacionadas ao clima são um começo. Assim como também é o reabastecimento da Associação Internacional de Desenvolvimento do Banco Mundial.

E isso não depende apenas dos bancos de desenvolvimento. Os países do G20 são seus maiores acionistas e devem financiá-los adequadamente e exigir mais, inclusive reformas mais amplas na arquitetura financeira internacional, além de trabalhar para encontrar fontes novas e inovadoras de financiamento.

Sob a liderança do Brasil no G20, os ministros do clima e das finanças finalmente se reuniram. Essa colaboração essencial deve continuar e ser traduzida em resultados claros.

O progresso no financiamento climático fora do nosso processo de negociação permite avanços dentro dele e vice-versa. Se falharmos em qualquer um deles isso poderá ser um golpe fatal para partes cruciais do Acordo de Paris.

Portanto, resultados ambiciosos nas Reuniões Anuais são vitais para possibilitar ações climáticas mais ousadas que impulsionem as economias e fortaleçam as sociedades em todos os lugares.

Na COP29 em Baku todos os governos devem chegar a um acordo sobre uma nova meta para o financiamento climático internacional que realmente atenda às necessidades dos países em desenvolvimento.

A COP29 deve ser a COP de se erguer e cumprir, reconhecendo que o financiamento climático é fundamental para salvar a economia global, bilhões de vidas e meios de subsistência dos impactos climáticos desenfreados.

Não é minha função prever como será a nova meta. Mas está claro que o financiamento público deve estar no centro.

A maior parte possível desse financiamento precisa ser doada ou em condições concessionais, e deve ser mais acessível para aqueles que mais precisam.

E precisamos fazer valer, sempre que possível, os recursos destinados a enfrentar as mudanças climáticas, alavancando mais financiamento privado e enviando sinais aos mercados financeiros de que o verde é onde estão os ganhos.

A questão vital de quem paga e quanto pode ser acordada em Baku, mas não estamos indo para lá para renegociar o Acordo de Paris.

Também é importante que criemos mecanismos para rastrear e garantir que os fundos prometidos sejam entregues.

Também é preciso trabalhar mais para aumentar rapidamente o financiamento para adaptação e fazer com que os mercados internacionais de carbono funcionem para todos.

Precisamos financiar uma nova geração de planos climáticos nacionais. Para proteger o progresso que fizemos na COP28 e converter as promessas do Consenso dos Emirados Árabes Unidos - triplicar a energia renovável, duplicar a eficiência energética, impulsionar a adaptação e abandonar os combustíveis fósseis - em resultados econômicos reais.

E precisamos fazer com que o Fundo de Perdas e Danos funcione plenamente, distribuindo dinheiro para aqueles que mais precisam.

Este é um momento de profunda fratura entre as nações e dentro delas. Em momentos como esse, há uma tentação de se voltar para dentro. Uma crença ilusória de que o que acontece no quintal do meu vizinho não é problema meu ou preocupação minha.

Se seguirmos esse caminho, logo será o fim do jogo na luta mundial pelo clima. Portanto, em vez disso, vamos escolher o caminho à frente que muda o jogo - aquele que reconhece que um financiamento climático maior e melhor é totalmente do interesse de todas as nações, e pode gerar resultados em todos os lugares.

Vamos escolher o caminho que se concentra em soluções, e garantindo que os enormes benefícios de uma ação climática mais ousada - crescimento mais forte, mais empregos, melhor saúde, energia limpa segura e acessível - estejam ao alcance de todas as nações.

Esse é o único caminho para que todas as nações sobrevivam e prosperem.

Aguardo ansiosamente nossa conversa.

Obrigado.